22
Jun
10

as imagens que guardei para mim

Quando só existiam na cidade de São Paulo, apenas duas escolas de arquitetura,   um cursinho pré vestibular, era o responsável, não só, por dividir os futuros arquitetos, entre essas  faculdades, mas também por  mostrar que havia vida inteligente no  famigerado  e medíocre mundo do  vestibular. Chamava-se Universitário, e tinha uma filosofia de ensino diferente dos cursos  destinados a esse fim.  Rolava por ali, uma certa vanguarda,  uma informação extra curricular, para quem se interessasse. Quem optasse por  arquitetura, tinha   aulas de desenho – linguagem arquitetônica –  com uma dupla,  cujos  artistas que naquela época estavam começando a despontar como feras das artes plásticas,  mas já deixavam bem claro à que vinham – Carlos Fajardo e Luiz Paulo Baravelli. Tive ali toques, que até hoje guardo no meu baú de vivências.

As aulas de literatura, não se restringiam apenas aos parcos resumos de “Iracemas, Cortiços, Paulicéias” e afins,  mas jogavam luz também sobre  um certo Fernando Pessoa e sua trupe de heterônimos, que passavam longe do vestibular.  Edgar Allan Poe, a geração beat, Jack Kerouack … Enfim um cardápio com itens variadíssimos.

O Universitário localizava-se no  Bixiga, numa   época em que o bairro mais parecia um reduto da velha Itália,  pré febre boemia que assolou e descaracterizou  o local no começo dos  anos 1980.

Eu e meus amigos  serpenteávamos por suas  ruas estreitas e vielas, desviando de lençóis pendurados nas fachadas das casas caiadas,  embalados pelo som de conversas das matronas debruçadas nas janelas. Torcíamos   para encontrar com a italiana gorda, que se integrava à nossa comitiva,  nos acompanhando com um simpático cesto, que equilibrava na cabeça, transbordando de flores  para vender.   Os “carcamanos ” e seus antiquários cheios de personalidade, eram o cenário perfeito para fugirmos de uma ou outra aula que julgávamos desnecessárias para nossa futura profissão. Lá ouvíamos as histórias sobre as   peças e objetos maravilhosos que tinham para vender,   e também,  com um pouco de sorte,  e  dependendo da inspiração do seu Federico, podíamos ser contemplados com uma performance para lá  de anárquica de uma “canzonetta napolitana“. Aí era demais!                                                                                                        A efervescência do teatro Ruth Escobar, que realizava um festival com  espetáculos absolutamente imperdíveis, não deixava pedra sobre pedra trazendo grupos de vários países,  o que fatalmente culminava em encontros e bate papos com artistas, que vinham ali para se apresentar. Um verdadeiro desfile de estrelas.  Muita coisa acontecia nas escadarias ao lado do teatro, e que anos mais tarde, guardando as devidas proporções,  pude estabelecer uma certa  semelhança  com “Piazza di Spagna“. Roma era ali e eu nem sabia!

Saudosismos, e pieguices, à parte,  outro dia passando pela região, me deparei com, ” um   outro lugar”. O Universitário, não existe mais. As cantinas, bem…algumas viraram fast food.  O cineclube dispensou  os serviços de Godard,  Truffaut e Antonioni , cerrando suas portas para sempre. As matronas, se calaram. Suas janelas se fecharam… Sem que eu pudesse evitar, um turbilhão de perguntas começou a me acuar , e sufocar minha garganta:   Por onde andarão os meus amigos?…E o   seu  Federico, suas antiguidades e canzionettas,?… a italiana gorda que vendia flores? …As matronas!…  E a  efervescência do Ruth Escobar, porque acabou?  Será que aquelas figuras   ainda vivem? Se viverem, será  que tem consciência do impacto que causaram em minha vida?  Esse flash back aconteceu em menos de um minuto, mas  para mim, teve uns trinta e tantos de duração!

Essas perguntas, tenho a impressão que nunca vão ser respondidas. Acho que vou ter que me contentar apenas com a lembrança das imagens que guardei para mim!

obra de Luiz Paulo Baravelli

obra de Carlos Fajardo

Piazza di Spagna- Roma – Itália                                                                         as matronas na janela

Praça Don Orione  Bixiga-  São Paulo- Brasil

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josé luiz leone, arquiteto/designer ARQBAR = BAR : balcão+serviço rápido+amigos+ camaradagem+bate papo+ descontração+ circulação de informações+pessoas+ aprendizado+relacionamentos +parcerias+divulgação de trabalhos+ cumplicidade+novidade+ informação+arte+arquitetura+design

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