08
Ago
12

arquitetura da destruição ou uma árvore por testemunha ?

DEFINITIVAMENTE, não reconheço a minha cidade.

Dizem que São Paulo é feia, poluída e blá blá blá blá.  Narciso acha feio o que não é espelho, mas é aqui que nasci, cresci e tomei tenência na vida.  São Paulo, não tem carinha de menina, mas tenho muito carinho por ela.  São Paulo, é bailarina de todas as danças . Como a mais interessante das mulheres, vai se mostrando aos poucos.  Seduz vagarosamente. Quem for esperto, sucumbe aos seus encantos.

Não tem como passar batido, na frente de mais uma obra destruída. Desta vez a vítima, foi o arquiteto Paulo Mendes da Rocha, uma das mais completas traduções da arquitetura de Sampa.   Entre outras aberrações,  encapsularam com painéis metálicos, tirando toda a força do antigo prédio  da loja FORMA,  projeto bacanérrimo na av.  cidade jardim, aliás, uma das mais charmosas de São Paulo, que diga-se, também foi destruída. Desculpe mestre Paulo, o sr. não merecia isso. Nós não merecíamos isso.

O  bairro que morei na infância, não existe mais do jeito que o conhecia. Ok, a  cidade é um organismo vivo em constante transformação, porém tenho a impressão, que está sendo redesenhada com linhas equivocadas.  Verticaliza e adensa na velocidade da luz.  A verticalização é necessária  nas grandes cidades, desde que essa transformação obedeça aos  mínimos  critérios  de urbanização, e nunca perca de vista, a peça chave deste tabuleiro – o ser humano.  Por ali,  ruas transformaram-se em estacionamento.  As casas,  em  prédios enormes com faces de Frankenstein. Isso elevou a densidade populacional à estratosfera.  Em terrenos com casas onde moravam cinco ou seis pessoas, hoje mora um contingente pesado,  acotovelando-se  em andares de condomínios em  “estilo mediterrâneo”.  

Barzinhos e prédios residências disputam, numa batalha feroz,  o mesmo palmo de espaço.  Lei de zoneamento? Onde mesmo é que já ouvi falar desse “trem”?  Isso é o que restou do bairro onde  nasci e morei por um bom tempo da minha vida.

O resultado de   empreendimentos que  na maioria das vezes,  só visam lucro,  acaba desabando nas costas de quem ainda quer morar na cidade.   Não levam  em conta, estudos prévios de impacto ambiental  e condições de habitabilidade.   Isso, sem falar na falta de  praças, transporte e outros  equipamentos de lazer, bolsões de estacionamento, aspectos de extrema importância quando se fala em qualidade de vida.

Por  questões  circunstâncias,  tive que voltar  ao tal bairro. Um   domingo. Outubro, época de eleição para a escolha de  um  prefeito para a cidade  em cujo local,  ainda funciona uma escola de freiras com projeto de Rino Levi, em frente  a minha antiga  casa.

Isso desencadeou um flashback, que me fez descer sem medo as corredeiras que  levam ao meu  passado.

Como dizia  Jung, coincidências não existem. Usei toda a minha munição de interrogações, e a única resposta que obtive, foi um convite a viagem.  Entreguei-me como um zumbi,  montei num imenso dinossauro e deixe-me abduzir pelo acaso.

Porque deveria estar ali naquela hora, naquele dia? Serei eu  Nacional Kid, ou um dos três patetas?

Atravessei a rua e num transe hipnótico,  abri um alçapão  que havia deixada fechado há anos naquela calçada.

Com certeza, as respostas de todas as minhas dúvidas, medos, incertezas, aspirações, estavam escritas com letras inseguras nos cadernos de caligrafia que eu abandonara por ali .

De tudo, só restou uma simples árvore, que  encarregou-se  de fazer a conexão. O rito de passagem. A árvore  é a testemunha  da exata localização da  casa – hoje  um muro branco – com portões imensos, cheios de seguranças de um  prédio,  de “alto padrão” que foi erguido em seu lugar.

Abre-se uma enorme holografia . No lugar do muro alto e branco,  cola na minha retina a casa térrea de muro baixo, pedras vermelhas e jardim bem aparado. Uma tarde fria de julho.  Fria mesmo, sem licença poética. Eu, ainda um garoto,  estava sentado à porta quando vi  um funcionário da prefeitura plantando árvores nas calçadas.  Por uma questão de organização, essas árvores seriam plantadas em frente às casas, uma sim, outra não. Desesperado, constatei que minha casa estaria fora e pedi ao funcionário se poderia plantar uma ali.  Ele não só me atendeu,  como  de quebra ainda me convidou para ajudá-lo a plantar.

Entrei correndo e com o coração saindo pela boca, revelei a novidade a minha mãe.  Sabia que isso a deixaria extremamente feliz.  Talvez por isso, até hoje,  os dias frios e sem sol,  me causam uma sensação meio estranha, um misto de melancolia e força.

Nas asas de  Nacional Kid, ficava imaginando poder sobrevoar sua copa, e ver a cidade sobre seus galhos.

Por muito tempo, me senti responsável por aquela joia, aquele presente inestimável.  Plantar uma árvore para um garoto de cidade, equivalia  a  um encontro com o divino.  Achava-me importante,   se eu não estivesse ali naquela hora, com certeza ela não seria plantada ali.

Os anos se passaram, e eu cresci.  Levianamente a esqueci completamente. Tornou-se invisível,  incorporou-se a paisagem, tomando um destino incerto.  Outras questões já me atraiam.

Hoje entendo como foi generosa. Durante anos de esquecimento, resignada, ela guardou essa história para me presentear, talvez boba e piegas para alguns, mas com certeza tatuada no meu DNA.

Continua lá, frondosa!  Bela e viva, como minha mãe, naquela tarde fria, em que contei a ela a novidade. Talvez como esteja ela  hoje, no lugar onde estiver.

A casa já se foi há anos, mas  “minha árvore ”  permanece  lá para quem quiser aprecia-la,  indicando  o marco zero  da minha vida. Fiel,  fincada como uma âncora,  atenta como uma esfinge, guardando um templo que só nós sabemos que existiu.

Realizei ali, um  rito de passagem.  Depois desse encontro, nada foi como antes. Uma fenda me levou para um lugar, que está vivo, numa outra dimensão da minha vida. Entendi finalmente que sou o senhor do meu tempo, transito por ele, como achar melhor.

Será que voltarei lá novamente? Certamente aquela árvore tinha algo a me revelar, talvez aquilo que eu já nem me lembrava mais: a certeza de que um menino que um dia viveu em mim, continua sempre ao meu lado…Que sabe tudo! Que me protege e me puxa para a frente.

Infelizmente, pude constatar que foi uma das poucas que restaram na rua e resistiu ao tempo. As outras? Foram cortadas ou simplesmente não vingaram.  Arrisco um palpite:  talvez não tivessem nada a dizer a  ninguém.

Obtive a confirmação, de que aquela árvore continua sendo especial, para mim. Apesar de estarmos absolutamente distantes,  sei também,  o que devo representar para ela. Quanta generosidade!  Quanto tempo esperou para me chamar ali, e me agradecer? Encontramo-nos e nos agradecemos!

Dizem que temos algo a fazer nesta vida, um caminho a trilhar:   uma árvore, os filhos,  um livro, …

Será que essa é a  ordem correta das coisas?

Será que completarei  a tal trilogia? .  Se isso for verdade:  o  livro completa o ciclo. Esse porém,  só o menino poderá escrever.

Qual a real importância desses acontecimentos?

Será que  isso interessa a alguém a não ser a mim e a minha grande amiga?

Será que o tal  homem que  plantava árvores,  ainda vive?

Se viver, será que ele se lembra de mim? Será que  ele  sabe o impacto que isso teve sobre minha vida?   Certamente  sim… Lembra do Jung : coincidências não existem…menino!

Talvez essa viagem, teve uma razão, aliás, como tudo na vida.    Preparou-me  para responder a minha mais íntima questão existêncial: Quem sou eu?  Acho  que já   posso arriscar e voltar ao começo de tudo:

-SIM,  EU SOU  NACIONAL KID!…  essa, é  a  única  certeza que tenho na vida.

O resto? … Só uma série interminável de perguntas que continuarão fazendo parte de uma  infindável lista !

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1 Response to “arquitetura da destruição ou uma árvore por testemunha ?”


  1. 1 Ednad
    Agosto 31, 2012 às 12:55 am

    Ufa, o que comentar? Vou ver essa árvore com outros olhos agora e mais nada a comentar…


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josé luiz leone, arquiteto/designer ARQBAR = BAR : balcão+serviço rápido+amigos+ camaradagem+bate papo+ descontração+ circulação de informações+pessoas+ aprendizado+relacionamentos +parcerias+divulgação de trabalhos+ cumplicidade+novidade+ informação+arte+arquitetura+design

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